Surfando nas ondas de um futuro melhor

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Fosse ainda criança, Jocélio de Jesus teria perfil para ser um dos garotos carentes atendidos pelo Projeto Ondas, em Guarujá. Mas hoje, aos 47 anos, este baiano, conhecido como Jojó de Olivença, bicampeão brasileiro de surfe (1988/92), comanda a iniciativa que está mudando a realidade de várias crianças e adolescentes. Mais do que ensiná-los a surfar, Jojó e sua equipe proporcionam à garotada a chance de enxergar horizontes mais promissores do que aqueles que estão acostumados a vivenciar, na periferia da cidade. Tudo começou no início dos anos 2000. Cansado da rotina de viagens e para ficar mais próximo da família, Jojó, que se mudou para o Guarujá em 1989, havia deixado de correr o WCT, divisão de elite do surfe mundial, em1998. Competindo apenas no Brasil, ele abriu uma escola de surfe na cidade para ter uma fonte de renda extra.

O empreendimento não foi lá muito bem sucedido, pois só dava retorno financeiro durante a temporada de verão. Mas serviu para que o surfista se deparasse com a situação de risco vivida por crianças que perambulavam pela praia da Enseada. “Chamamos a criançada que ficava catando latinha e pedindo dinheiro, e outros que faziam pequenos furtos, para ter aulas gratuitas. E descobrimos que a carência deles era muito maior do que isso. O surfe é uma ferramenta maravilhosa e outros elementos foram agregados ao esporte, em busca de soluções para os problemas que a gente encontrava com as crianças”, relata Jojó.

A iniciativa foi levada à frente com a ajuda de alguns voluntários, de 2000 a 2002, mas por falta de estrutura, o trabalho foi interrompido. A bateria de Jojó, porém, só estava começando e ele teve que driblar as dificuldades para conseguir apoiadores e criar uma ONG, o Projeto Ondas. “Passei quatro anos me dedicando a isso e conseguimos apoio da Overboard, em 2006. Fui contratado pela empresa, que apadrinhou o projeto. Em 2007 nós criamos a ONG e a partir daí fui participar de cursos e buscar dinheiro pra pagar a turma”, conta.

Oito anos depois, a ONG atende 60 crianças e adolescentes, de 7 a 14 anos. Para frequentar o projeto, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 8h às 11h30 ou das 14h às 17h30, eles têm que estar, obrigatoriamente, estudando. Cumprida a exigência, podem desfrutar das aulas de surfe na Enseada, monitoradas por instrutores. E participar dos programas Ondas do Saber (aulas de reforço escolar de português e matemática), Surfando Valores (palestras sobre cidadania) e Onda Ecológica (educação ambiental).

As atividades, que antigamente aconteciam na praia, também contam hoje com aulas de natação, café da manhã e lanche, numa casa alugada na Enseada e bancada pela prefeitura de Guarujá. Apesar do apoio do município, que custeia 80% dos gastos da ONG, Jojó busca mais parceiros para ampliar o alcance do projeto. “É um processo burocrático difícil, lento. A gente trabalha com os pés no chão, para não se envolver com pilantropia, porque infelizmente a cultura da corrupção no Brasil permeia em todos os campos. Se não tomar cuidado, a credibilidade que agente constrói pode ir por água abaixo. Ainda que seja a passos de tartaruga, a gente cresce com solidez”, avalia.

Dentro dos planos de expansão, a primeira vitória a se comemorar é a aprovação, pela Petrobras, do projeto Surfando Valores. A partir de maio, 40 garotos de 14 a 17 anos passarão a ser atendidos pela ONG, que vai buscar parcerias para qualificar os adolescentes, visando o mercado de trabalho. “Alguns que já passaram da idade vão poder continuar e outros poderão entrar. Com essa ampliação, o nosso atendimento, que hoje é três vezes por semana, passará a ser de segunda a sexta”, celebra Jojó. Além da prefeitura, Overboard e, a partir de maio, a Petrobras, os outros apoiadores da ONG são Blessing Orgânicos, Australian Centre, WG, Delphin Hotel, MC Group e Unaerp.

“A gente estimula para que eles descubram suas potencialidades e vão em busca de seus sonhos. Tudo é possível, se eles quiserem, chegam aonde desejarem. Pra alcançar o sonho é um processo, você foca um alvo e até atingir, tem obstáculos pelo caminho. Eles têm uma vida de conquistas pela frente, é preciso começar a caminhar e acreditar em si mesmos”. Na convicção das palavras, Jojó deixa claro o desejo de ver os integrantes do Projeto Ondas dando uma guinada em suas vidas. Afinal, ele se reconhece no perfil dos frequentadores, muitos deles oriundos de famílias pobres e desestruturadas.

“Eu fui um garoto pobre, que teve no surfe a chance de se projetar na vida”, afirma Jojó. Dentro deste processo, envolver as famílias é fundamental. Por isso, todas as sextas-feiras, são agendadas palestras com o objetivo de fortalecer princípios e valores morais, éticos e de cidadania. A contratação de uma nova assistente social (a profissional que exercia a função deixou o cargo, no final do ano passado) é uma das prioridades, mas esbarra na falta de verbas.

“É uma necessidade urgente trabalharmos a sustentabilidade da ONG, porque vivemos uma situação financeira instável. Estamos elaborando ações para captação de verbas da Nota Paulista e um programa de crowndfunding, além da produção de artesanato e camisetas, para fortalecer os nossos recursos próprios”, diz Jojó. As dificuldades do dia-a-dia, porém, se dissipam quando ele fala das crianças e adolescentes atendidos no projeto. “Eles vêm pra cá com muita alegria, muitos nem dormem direito, porque sabem que no outro dia têm que estar aqui cedinho para surfar. Sete e meia já estão batendo no portão, vem com todo o entusiasmo”.


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